sexta-feira, maio 17, 2013

A memória dos Cátaros no regresso a Montségur

O castelo de Montsegur e, na base, o prado que é conhecido como "Camp dels cremats"

Ainda durante a recente passagem pelos Pirinéus, tive a satisfação de poder voltar à aldeia de Montsegur, dominada pela visão do seu castelo construído no topo de um esporão rochoso. A primeira vez que tentei subir ao castelo, há alguns anos atrás, fiquei frustrado. Chovia a cântaros e o castelo estava escondido pelas nuvens, das quais se ouvia esporadicamente o som dos trovões. Ainda assim, resolvi ser teimoso e iniciei a subida protegido pela floresta, até ao quiosque de venda de bilhetes que se encontra a meia encosta.

O funcionário, que estava distraído a ler uma revista, quase caiu da cadeira quando me encostei à abertura do quiosque e lhe dirigi um "Bom dia!". -"Vai subir?!", perguntou-me ele, ao que eu respondi afirmativamente, já que, tendo vindo de propósito, sentia que era uma pena voltar para trás sem chegar ao castelo. -"Eu não o aconselho a fazê-lo! Há trovoada, lá em cima.", insistiu ele, ao que retorqui -"Sim mas, se eu for atingido por um relâmpago, vocês devolvem-me o dinheiro do bilhete, certo?". Não desarmando, respondeu-me -"Podemos devolver mas só se o conseguirmos identificar.".

A actual "nova" aldeia de Montségur, sob a vigilância do castelo. A antiga aldeia situava-se no topo do esporão, junto à fortificação.


Acabou por levar a melhor, tendo-me convencido a descer para visitar a aldeia e o seu museu. Só regressei três anos mais tarde e a visita valeu bem a espera. A paisagem que se avista do topo do castelo é de cortar a respiração, mas mais chocante que tudo é a própria história deste castelo, assim como daqueles que foram outrora os seus habitantes: os Cátaros!

Os Cátaros ou uma das mais sangrentas atrocidades religiosas da Europa

O Catarismo foi uma variante do Cristianismo que, provavelmente vinda do Sudeste europeu, ganhou extrema popularidade no Sudoeste do actual território francês, entre os séculos X e XII, numa altura em que este território vivia sob a influência do reino de Aragão. Os cátaros chamavam-se a si próprio "Bons homens" e apenas reconheciam o sacramento do "Consolamentum", um baptismo espiritual que os convidava a optar por uma vida de pobreza e abstinência. Renegavam os símbolos, as mulheres tinham funções religiosas activas, embora nos níveis mais baixos e, para além de ferozes anti-clericais, criticavam com veemência a feudalização da Igreja Romana. A cidade de Albi era o fulcro fundamental desta doutrina, daí que os cátaros tenham também ficado conhecidos como albigenses.

A rápida expansão do Catarismo, à qual se associaram vários nobres da região em busca de autonomia, não agradou muito à Igreja, que já na época tinha a particularidade de ser mais célere a condenar as heresias que aconteciam fora da sua esfera do que dentro dela, e após várias tentativas pacíficas de trazer os albigenses de volta à razão, o Papa Inocêncio III encontrou no rei Filipe Augusto de França, ansioso por incorporar a região no seu reino, o aliado ideal para lançar a primeira de duas cruzadas contra os albigenses em 1209. Esta primeira cruzada iniciou-se com o cerco e massacre de Béziers. Diz a lenda que, não sabendo como distinguir católicos de cátaros, o representante pontifical terá afirmado "Matem-nos todos. Deus saberá reconhecer os seus!". 

Depois de Béziers, foi a vez de Carcassone (ver aqui) cair à traição nas mãos dos cruzados


No ano seguinte, na localida de Bram, os requintes de sadismo atingiram o seu auge quando o Simão de Monfort, líder do exército francês, mandou que se arrancassem os olhos, lábios e nariz a 100 prisioneiros, deixando apenas um olho a um deles, fazendo-os depois seguir em fila indiana com a mão sobre o ombro do que seguiam na frente, até à cidade de Cabaret, que 3 meses antes conseguira repelir o cerco católico, numa medida de guerra psicológica.

Após uma segunda cruzada e um esmerado trabalho pela recém-criada Inquisição, a  guerra contra os cátaros teria o seu epílogo no ano de 1244 em Montségur, que por força das circunstâncias se tornara o centro espiritual do Catarismo. Montségur resistiu durante 10 meses ao cerco, acabando por cair graças a uma audaciosa escalada nocturna de um grupo de cruzados. Sem hipóteses de resistir, foi dado aos sitiados o prazo de 15 dias para que preparassem a rendição. A condição era apenas uma: quem não renegasse a sua fé morreria na fogueira. Apesar de muitos terem preferido a conversão, quando o prazo terminou cerca de 200 cátaros, homens, mulheres e crianças, desceram do castelo para morrerem na gigantesca fogueira feita naquele que é hoje conhecido como Camp dels Cremats (o campo dos queimados).

Alguns cátaros conseguiram no entanto fugir, tendo-se refugiado durante alguns dias "infra castrum" (sic), sob o castelo, numa alusão que sugere a existência de grutas que até hoje ainda não foram encontradas. Esta ideia sai reforçada pelo facto de não se ter encontrado até hoje nas pesquisas arqueológicas um número significativo de restos humanos, o que deixa supor a prática de enterramentos em grutas, à semelhança do que aconteceu no castelo de Montreal de Sos (ver aqui). No museu da "nova" aldeia de Montségur, uma vitrina horizontal guarda os esqueletos de um casal de cátaros, assim como as duas pontas das flechas que causaram a sua morte.

Só a partir do século XVIII a sua memória foi resgatada do esquecimento, e o mistério à volta destes homens e mulheres levou a que mais recentemente tenham sido associados a um fabuloso tesouro que estaria ainda escondido, assim como ao Santo Graal. Folclores.

Iluminura: Histoire de France

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