segunda-feira, outubro 01, 2012

Até sempre, Dª Maria Alcina


Começou infelizmente da pior forma esta semana, quando ao chegar a Caria, fui informado do falecimento, durante o fim-de-semana, da Dª Maria Alcina Patrício, um imenso ser humano e um verdadeiro exemplo de vida. O pesar divide-se entre o sentimento de perda de 93 anos de histórias e conhecimentos acumulados que faziam dela um verdadeiro e precioso livro e, sobretudo, a constatação, ainda em fase de aceitação, de que aquele incomparável sorriso já não entrará mais pela porta do nosso escritório, para o encher com a sua alegria.

O pequeno computador que era uma das suas principais distracções foi aliás o motivo pelo qual acabámos por nos conhecer. Era a sua via de comunicação com os familiares mais distantes e com o resto do Mundo também, fosse através do Skype ou do E-mail. Não demorou muito a aderir também ao Facebook, motivada pela sua afilhada: -"A minha afilhada está-me sempre a falar de uma coisa chamada Facebook. O que é isso? Eu também posso ter?". Este foi aliás o mote para várias tardes na sua companhia quando, depois de lhe ter criado a sua página, lhe fui explicando o essencial do seu funcionamento. Às dificuldades próprias da idade, respondia com uma tremenda persistência e uma curiosidade admiráveis, próprias não de uma idosa mas de uma criança que descobre o Mundo.

Tinha tanto de dinâmica como de generosa e não esquecerei a forma como se prontificou para gravar uma mensagem em vídeo de encorajamento para a minha mãe, na sequência do acidente que esta tivera e que, apesar das dores que sentia, foi capaz de lhe arrancar um sorriso.

Como ela própria dizia, não tinha tempo para se sentir sozinha, já que os seus dias eram totalmente preenchido pelas suas inúmeras ocupações, que ela própria ia renovando. Era artista plástica, cantora (criou inclusive o grupo das Cantadeiras de Caria), actriz (criou uma personagem "Ti Maria", que contava contos tradicionais, com a dicção popular do século XIX), tocava adufe, viola, piano mas, como se não fosse suficiente, e porque era dona de um temperamento imparável e incansável, começara também a ter aulas de cavaquinho!

Veio visitar-nos pela última vez há cerca de duas semanas. Estava anormalmente cansada e chegou a confessar o seu receio, premonitório como infelizmente se viria a verificar, em já não recuperar desta partida que o seu coração, enorme mas cansado, lhe parecia querer pregar. Ainda assim, ao sair, virou-se para trás e ainda atirou "Olhe, peça à sua Ana para arranjar alguma coisa para me pôr boa!" e rematou a frase com o seu inesquecível sorriso. Nem poderia ser de outra forma.


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