sexta-feira, julho 20, 2012

José Hermano Saraiva passou à História.

A notícia do dia é a do falecimento de José Hermano Saraiva, um rosto sobejamente conhecido de todos os portugueses, sejam eles mais ou menos interessados na História de Portugal. Tinha raízes aqui pela Gardunha já que o seu pai era natural das Donas, concelho do Fundão, tendo por isso uma ligação especial a esta região, bem expressa nos vários programas televisivos que a ela dedicou.


O que nem toda a gente sabe (mas que por estes dias ficarão sem dúvida a saber) é que ele ficou indelevelmente associado à nefasta repressão aos estudantes de Coimbra durante a crise de 1969. Estranhamente, pelas palavras recentes do próprio JHS, fica a ideia de que para ele tudo não passou de um arrufo que se resolveu com um raspanete dado por si na televisão.


Ora, esta crise estudantil foi de tal ordem que levou até à alteração da lei da incorporação militar, que passou a excluir do exercício militar apenas os estudantes que tivessem "bom comportamento". Assim, muitos trocaram as capas negras pelos camuflados e os livros pelas armas e partiram para o Ultramar, em nome do ideal caduco de defesa um império que só a teimosia, insensível ao sangue dos que iam tombando longe de casa, continuava a sustentar. 








(Indispensável ler este artigo e este também)


Acérrimo defensor do Salazarismo, alimentou sempre que pôde e até ao fim da vida a ideia de que Salazar fora um "justo como ditador" (curioso anacronismo!) e até anti-fascista! Transcrevendo uma entrevista prestada em 2006 declarou inclusive que, ao chegar ao poder, Salazar acabou com a ditadura, embora depois admitisse que só as eleições para Presidente da República lhe pareciam democráticas. Seria interessante saber a opinião de Humberto Delgado sobre este ponto específico. Digo eu.


Seja como for, JHS tornou-se mais conhecido nas gerações pós-25 de Abril pela sua constante aparição em programas televisivos, com que procurou dar a conhecer a História de Portugal, e nos quais fez valer os seus dotes de enormíssimo comunicador para fazer passar a sua mensagem.


Eu próprio confesso que fui em tempos um grande fã destes seus programas mas, com o passar do tempo, talvez ao mesmo tempo que me ia embrenhando no conhecimento da História, fui-me desinteressando. Isso aconteceu quando percebi que, muito do que contava nos seus programas não obedecia ao rigor factual que seria de esperar na prestação de serviço público, perdendo-se muitas vezes em evocações tão gloriosas quanto fantasistas. Ao fim e ao cabo, misturava o irreal com o real, servindo depois o resultado ao público com o rótulo de História de Portugal.


No entanto, e aí há que lhe reconhecer o devido valor, teve o condão de fazer com que muitos portugueses se interessassem pela História e pelo património do seu país e da sua região. Ironicamente, talvez até eu tenha sido um deles. A ser verdade, ele foi tão bem sucedido que deixou de me cativar.


Em suma, hoje uma figura pública passou tecnicamente à História. Irá de facto deixar um certo vazio na televisão pública mas, meus amigos, não exageremos! Já ouvi ou li algures pessoas a afirmar que o seu lugar de repouso deveria ser o Panteão. Mereceria menos essa honra o Carlos Pinto Coelho do que o José Hermano Saraiva? 


Foto: Crise Académica - Slideshare

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