segunda-feira, agosto 29, 2011

Pelo Sul da Hispânia IV – Almuñecar (Ou da osga Matilde ao cardume de pensos higiénicos)

almunecarDepois de Gibraltar e Ceuta, o próximo destino foi a povoação de Almuñecar, já na província de Granada, cidade que se seguiria no nosso roteiro.

Situada junto ao mar numa sucessão de enseadas, Almuñecar é actualmente uma cidade turística em crescimento, tendo um centro histórico que a relaciona sem margem de dúvidas com o seu passado islâmico devido ao intrincado de pequenas ruelas labirínticas, todas muito limpinhas, por entre casas brancas com painéis de azulejos.

O parque de campismo e a fauna local

À chegada, a primeira tarefa foi localizar o parque de campismo onde iríamos pernoitar o que acabou por não ser complicado. Foi no entanto estranho chegar e não ver vivalma. Nada que não se resolvesse mediante o tocar de uma sineta que ali se encontrava e que, aparentemente, despertou o senhor que surgiu em tronco nu, numa janela do primeiro andar, do seu merecido descanso.

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O local é excelente. Cheio de árvores e com um sistema de canais e tanques de irrigação que ajudam a refrescar o ambiente (estava cá um calor!), ficámos no entanto com a impressão de que só existiam 5 parcelas para acampamento, numeradas de 74 a 79 curiosamente, e todas elas vazias, excepto uma na qual se encontrava uma tenda-fantasma.

Para o duche também só havia água fria disponível, isto em instalações sanitárias que pareciam carecer de manutenção há já algum tempo mas que, apesar do aspecto que sugeria antiguidade, abrigavam uma fervilhante actividade animal, desde os insectos aos aracnídeos, incluindo ainda uma simpática osga que, de tão familiar que se tornou, acabou por ser baptizada de Matilde.

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No dia seguinte o despertar acabou por acontecer bem cedo graças a um galo que, de um galinheiro próximo, mostrou ser dono de boa voz. Dei-me ao trabalho de contar aquando da sua 3ª actuação: 30 “cocorocós” exactamente a cada 10 segundos! Uma obra-prima! Não sei que espécie de galo seria mas inclino-me para um galo da Timex ou da Omega.

A boa notícia e que nos foi dada em primeira mão pelo senhor que nos tinha acolhido em tronco nu (descobrimos que se chamava Manolo) e que descobrimos ser uma simpatia de pessoa, é que já havia água quente. Feita a toilette matinal, fomos à cidade ver o que se passava por lá!

Pelas ruas de Almuñecar

Para começar o dia, nada melhor que um belo pequeno almoço numa esplanada no areal (aqui e ali cascalhal) da praia de San Cristóbal. Ao lado, uma família local comia um pequeno almoço típico que mais tarde experimentaríamos já em Granada, constituído basicamente por fatias de pão torrado com polpa/pasta de tomate e um fio de azeite, acompanhado de café com leite ou sumo de laranja.

Já revigorados (depois de dois cafés porque uma café apenas em Espanha é quase nada) aventurámo-nos pelas ruas de Almuñecar, aproveitando a desculpa de uma multi-cache (ver Geocaching) que nos levaria aos pontos mais interessantes da localidade, começando pelo parque botânico e arqueológico El Majuelo, aos pés do Castelo de San Miguel.

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Neste parque é possível ver ruínas de uma fábrica de garum, uma pasta de peixe bastante popular na gastronomia da Antiguidade, era até um produto de luxo, e que consistia basicamente em vísceras e sangue de pescado maior, misturado com peixes ou moluscos esmagados, tudo fermentado em tanques ao longo de 2 meses. Devia ser bem apetitoso, não vos parece?

Os vestígios de fabricação de garum remontam à colonização fenícia que aqui se estabeleceu progressivamente a partir do século VIII a.C, embora houvesse uma povoação indígena no local do actual castelo a partir do século XV ou XVI a.C. Os romanos ocuparam mais tarde o local, acabaram por fazer da povoação uma capital de município chamada Firmium Julium Sexi. Dai que, ainda hoje, os habitantes locais sejam chamados de Sexitanos.

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Depois do El Majuelo, subimos em direcção à Cueva de los Siete Palacios, na verdade um criptopórtico que, como o de Coimbra, era a base de uma plataforma destinada a vencer o declive da colina e sobre a qual assentavam edifícios na época romana. O espaço foi transformado em Museu Arqueológico Municipal, albergando algumas peças encontradas na povoação ou nos seus arredores.

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A peça mais importante deste museu é um vaso, talhado numa peça única de quartzo! Trata-se de um vaso egípcio do século XVII a.C. que, pelas inscrições, terá contido as cinzas do faraó Apófis I e terá provavelmente sido trazido pelos fenícios para esta zona do Mediterrâneo, quase 1.000 anos após a sua construção. Foi encontrado a servir de pote de armazenamento de água numa habitação de Almuñecar.

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As ruas do centro histórico de Almuñecar, como já referi, são labirínticas, estreitas e muito limpas, atravessando pequenos bairros que se organizam, aqui e ali, em torno de pequenas pracetas muito agradáveis. O branco está omnipresente, tal como os terraços, o que nos recorda constantemente a forte influência árabe em Almuñecar. Outro elemento que se impõe na paisagem deste centro histórico é o azulejo com os típicos padrões geométricos, assim como a cor garrida das portas e janelas.

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No topo da elevação que domina a paisagem situa-se o Castelo de San Miguel, uma impressionante fortaleza de fundação romana mas que atingiu o seu esplendor máximo durante o período árabe, sendo que ainda é possível entrar nas masmorras dessa época.

Almuñecar e o seu castelo tiveram um papel importante no fim do último reino muçulmano na Península Ibérica. Esta foi a última localidade a cair antes da tomada de Granada pelos Reis Católicos e foi ainda do porto de Almuñecar que o último sultão de Granada e a sua corte embarcaram rumo ao exílio no Norte de África.

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Logo à entrada, um dos torreões que ladeiam a porta principal aparece tombado. Trata-se de uma consequência ainda visível do bombardeamento naval a que os ingleses sujeitaram a fortaleza durante o século XIX, deixando o recinto indefensável e levando ao seu posterior abandono.

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De volta à zona baixa da cidade, um edifício chama a nossa atenção pelas suas formas e cor. Trata-se do palácio de Najarra, construído em estilo neo-árabe sobre uma habitação árabe anterior.

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No jardim do palácio, que serviu para nos refrescarmos um pouco, existe uma colecção extremamente variada de fósseis, desde amonites até trilobites, alguns deles de enormes dimensões. Numa das paredes é possível ver dois painéis de trilobites.

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Bem no meio de Almuñecar situa-se o Museo del Bonsai. No entanto a intenção de todos os membros da comitiva, sem excepção, em visitar o espaço esbarraram mais uma vez na implacável hora da siesta. Fica o registo efectuado a partir do exterior que deixou perceber a existência de alguns exemplares extremamente interessantes!

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Um pouco mais à frente, uma fonte exibe de forma ostensiva as duas bicas que outrora mataram a sede a muita gente mas que agora se mostram estéreis. Fica a imagem de uma fonte que pareceu em tempos dizer “bebe daqui que é fresquinha”.

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Perto da generosa fonte, encontra-se a Iglesia de la Encarnación, um enorme templo em estilo barroco muito característico desta zona…

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… que parece guardar os vestígios da época romana que se encontram atrás de si. Trata-se dos restos de um aqueducto, termas e cisterna, sendo ao mesmo tempo o conjunto de vestígios romanos mais bem conservados na cidade.

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Apesar de toda a diversidade e importância histórica dos diferentes edifícios de Almuñecar, há no entanto um edifício que se destaca e fica sem dúvida na memória: a casa-barco.

Construída há mais de 30 anos por Pepe, um antigo marinheiro da marinha mercante, esta casa cria uma sensação de alguma confusão já que, por momentos, fica-se com a impressão de estarmos perante um navio encalhado a uma considerável distância da costa.

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Já agora, vale a pena ver esta reportagem do Canal Sur realizada no interior da casa-barco e na qual o proprietário serve de cicerone e mostra algumas das preciosidades que foi recolhendo ao longo dos anos.

Cuidado ao estacionar em Almuñecar!

Quem decidir fazer uso do veículo automóvel em Almuñecar tem à sua disposição uma panóplia de espaços para estacionamento. Convém no entanto ter em atenção, no momento do parqueamento, se o parque é gratuito ou não para não ocorrerem surpresas menos agradáveis.

Contudo, em Almuñecar, a partir do momento em que a infracção for detectada, os prevaricadores têm uma hora para pagar uma taxa agravada, antes de serem contemplados com a coima propriamente dita. Pelo que pudemos saber, a taxa é de 15 euros enquanto a coima é de 60 euros e, crème de la crème, a taxa pode ser paga directamente no parquímetro, imprimindo os talões de pagamento e colocando-os juntamente com o aviso dentro de uma ranhura no próprio aparelho.

Na foto é possível ver dois cidadãos, ao que conseguimos averiguar, de origem portuguesa, efectuando o pagamento da taxa agravada num dos parquímetros existentes por ali e ignorando por completo o aviso de coima que também havia sido colocado no limpa pára-brisas do seu veículo. Turistas…!

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Os exóticos cardumes das praias de la Herradura

Ao chegar a Almuñecar já trazíamos na bagagem uma interessante frequência de praia. Desde o areal algo sujo, embora com água relativamente limpa, de La Línea (apesar de termos avistado um cavalo dentro de água), uma micro-praia pedregosa em Gibraltar e uma fantástica praia de areia branca em Ceuta.

Há 6 anos, quando por aqui havia passado, tinha sido impossível tomar banho em Almuñecar. A água estava cheia de alforrecas, facto que, para além de dar um tom diferente à água quando visto de longe, justificava a bandeira vermelha. Os únicos que se divertiam na praia eram uns miúdos que, com uma rede, recolhiam e amontoavam alforrecas no areal, resultando numa espécie de monte de gosma.

Sem possibilidades de molhar o rabo na zona, acabámos por ir parar a Motril, a alguns quilómetros para Este, onde a praia não é extraordinária mas também não é má de todo.

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Desta vez, por influência do nosso roteiro ao longo do dia, acabámos por ir parar a La Herradura, uma localidade a 5 ou 6km a Oeste de Almuñecar.

Instalado o “acampamento” balnear, acabei por ser o primeiro a fazer-me à água e posso garantir que não me lembro de ter alguma vez nadado em água tão quente. Foi um erro. Felizmente alertado a tempo pela Ana, escapei por pouco de um ataque perpetrado à traição por um cardume de pensos higiénicos liderado por um preservativo que, nitidamente, já vinha com ela fisgada e que se aproximavam furtivamente por trás de mim.

Não é que eu fique indiferente aos constantes avisos da necessidade de praticar uma frequência segura das zonas balneares. No entanto, o meu conceito de banho seguro não envolve de modo algum preservativos flutuantes, nem tão pouco se compadece com a presença de pensos higiénicos em fim de carreira.

Sendo assim, lá regressámos a Motril para um banho rápido antes da próxima etapa: Granada!

 

Brasão obtido na Wikipédia

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