sexta-feira, junho 03, 2011

Sabem quem foi Roland Garros?


Por estes dias joga-se em Paris o torneio de ténis Roland Garros que conta com a presença da nata do ténis mundial, e estamos a falar da nata a sério (aquela que fica mesmo no coador). Seja ou não fã de ténis, toda a gente já ouviu falar neste torneio. Mas quem é afinal esse tal de Roland Garros que deu nome ao torneio? Nem todos saberão e alguns poderão responder que se trata de um antigo jogador de ténis de origem francesa.

Na verdade, Roland Garros tem uma história de vida pouco pacífica. Pioneiro da aviação, foi um dos primeiros pilotos de combate da História, durante a I Guerra Mundial. Responsável pelo aperfeiçoamento do sistema de sincronização que permitia disparar a metralhadora pelo meio das pás da hélice do avião e inventor do caça monolugar, Garros foi também protagonista de uma das mais incríveis evasões de um campo de prisioneiros da história deste conflito, juntamente com outro ás da aviação: Anselme Marchal.


A evasão de Garros e Marchal

A 18 de Abril e 1915, Garros foi forçado a aterrar atrás das linhas alemãs, na sequência de uma avaria no seu avião, tendo sido feito prisioneiro. Ironia das ironias, o seu mecanismo de sincronização hélice-metralhadora caiu nas mãos dos alemães que desta forma deram um salto enorme em termos de eficácia da sua força aérea. De prisão em prisão, destino acabaria por juntá-lo a Anselme Marchal num campo de prisioneiros em Magdeburgo, já em 1918. Marchal fora capturado após ter "bombardeado" Berlim com panfletos de propaganda, tendo sem sucesso tentado chegar à Rússia, acabando por aterrar, também ele, devido a uma avaria.

A 14 de Fevereiro de 1918, Garros e Anselme Marchal conseguiram evadir-se. O plano fora preparado com precisão durante várias semanas e era de uma simplicidade desconcertante consistindo em sair do campo... tranquilamente pela porta, disfarçados de oficiais alemães.

Os uniformes foram preparados com minúcia. O tecido foi obtido a partir das fardas azuis dos oficiais franceses e tingido de cinza, os botões foram esculpidos em madeira e pintados de forma a parecerem de bronze e os sabres foram feitos com paus com várias aplicações de cera. Com a ajuda dos camaradas, todos os elementos de pormenor destinados a dar realismo aos uniformes foram improvisados a partir de materiais tidos como inofensivos, que se encontravam nos alojamentos dos prisioneiros. Por baixo dos uniformes, escondiam-se roupas civis que seriam usadas mal estivessem longe do campo. Quanto aos indispensáveis documentos de identificação, esses foram forjados por um outro prisioneiro habilidoso.

Chegado o dia da fuga, Garros e Marchal saíram das garagens do campo, discutindo de forma exaltada em alemão, ou melhor, Marchal falava (era fluente) enquanto Garros, que nada percebia, apenas ouvia e acenava.

Passaram por uma sentinela, depois outra e ainda outra, sendo que nenhuma delas solicitou qualquer identificação aos dois oficiais, que reclamavam da falta de respeito dos prisioneiros e sobre como era necessário tomar medidas para endurecer a disciplina. Só a 4ª sentinela os interpelou e pediu a documentação. Marchal, que queria evitar ao máximo usar os documentos de identificação que traziam com eles, respondeu furiosamente que não iria mostrar mais os documentos, depois de o ter feito já por 3 vezes. O truque resultou e a sentinela limitou-se a fazer continência e a abrir caminho.

Dali, os dois oficiais dirigiram-se à estação de Magdeburgo a partir de onde viajaram de comboio até Colónia e daí para a fronteira. As restantes dezenas de quilómetros foram feitas durante a noite, atravessando localidades e florestas, tendo acabado finalmente por conseguir chegar à Holanda, após terem percorrido um total de mais de 500km, regressando depois a França, apresentando-se novamente ao serviço, de forma imediata.

Garros e Marchal condecorados com a Legião de Honra após o regresso a França

Roland Garros morreria a 5 de Outubro desse ano, após ter sido abatido durante um combate aéreo. Quanto a Marchal, acabaria por morrer, já depois da Guerra, em Junho de 1921, após ter sido atingido pela manivela com que punha o seu carro a trabalhar.

Fonte: MORTANE, Jacques - "Traqués par l'ennemi", Éditions Baudinière, 1929.

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