terça-feira, agosto 31, 2010

Os ciganos, o Holocausto e um Vaticano confuso

nazis

O Vaticano veio recentemente tornar pública a sua posição em relação à expulsão dos ciganos, em situação ilegal, do território francês comparando este caso ao Holocausto. Ora, tenho para mim que esta comparação está para a História como o Trinaranjus está para o Sumol: falta-lhe sobretudo gás.

Se a Santa Sé já é pródiga em tomar posição sobre tudo e mais alguma coisa (aposto que o jogo favorito do clero residente é o Twister) é também extremamente infeliz na terminologia que usa. Até fico com a impressão que o Vaticano gosta tanto de queimar políticos que perde a noção do razoável. Bom, se calhar não deveria usar o termo “queimar” na mesma frase de “Vaticano”… mas, repito, a terminologia empregue é extremamente infeliz.

Quem não se lembra de quando, há alguns meses atrás, o Vaticano comparou a chuva de acusações relacionadas com pedofilia de que estava a ser alvo com o anti-semitismo de que os Judeus tinham sido vítimas. Aqui, contudo, o Vaticano foi mais longe e acrescentou que esta era uma conspiração (anti-semita, portanto) orquestrada por homossexuais que assim queriam fragilizar a Igreja com boatos maldosos. Ora, quando já todos começavam a acreditar nisto (*inserir espasmos tússicos aqui*), o Vaticano veio a público assumir afinal a sua responsabilidade e pedir desculpa pelos casos de pedofilia, numa atitude que podemos definir como uma purga estalinista auto-induzida (foi o melhor que se conseguiu arranjar a esta hora).

Voltando à questão dos ciganos (ao “Holocausto”), tenho de dizer que, não sendo eu propriamente um gestor eficaz de finanças pessoais, creio ser muito melhor negócio receber gratuitamente bilhetes de avião e um cheque de 300 euros para uma viagem à Roménia (tendo à espera o mesmo emprego que tinham em França) do que ter de doar toda a roupa, o cabelo, óculos e tudo o que possa ser usado como matéria prima em troca de uma tatuagem. Isto para não falar desta ideia idílica que tenho da Roménia e que me faz pensar que se trata de um local muito mais agradável para se estar do que, por exemplo, um forno crematório.

 

Foto: Sue’s Room

segunda-feira, agosto 30, 2010

200 anos do Cerco de Almeida – Vídeo da Recriação Histórica da Batalha do Côa

No seguimento do artigo anterior (clicar aqui para ver o relato da batalha e as fotos) aqui fica o vídeo da recriação histórica da Batalha do Côa.



Este vídeo é dedicado à Ana que não pôde estar lá connosco.

200 anos do Cerco de Almeida – Recriação Histórica da Batalha do Côa

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Na comemoração dos 200 anos do Cerco de Almeida (24 de Julho a 28 de Agosto de 1810), que levou à tomada da Praça pelas forças francesas da 3ª invasão, comandadas pelo General Massena, pelos fossos da fortaleza e pelas margens do Côa voltaram a fazer-se ouvir os disparos dos mosquetes e dos canhões, numa recriação histórica que envolveu centenas de pessoas

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No Sábado teve lugar a recriação da Batalha do Côa (24 de Julho de 1810), que antecedeu o Cerco de Almeida, recriando um momento particularmente difícil para as forças anglo-lusas e onde entre 700 a 1.000 homens terão perdido a vida. Foi por isso também carregado de significado o momento em que, sobre a ponte do Côa, todos os participantes da recriação da batalha dedicaram um minuto de silêncio aos que caíram naquele dia.

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A Batalha do Côa

Perante o avanço francês, Wellington adoptou uma táctica de desgaste do inimigo sem oferecer combate frontal, retirando gradualmente o exército anglo-luso em direcção a Lisboa, ganhando o tempo necessário para que as Linhas de Torres fossem concluídas.

Junto a Almeida estava estacionada a Brigada Ligeira, comandada pelo General Craufurd e formada 5.000 homens, que recebeu ordens para não esperar os franceses na margem direita, cruzando a ponte e formando resistência na margem esquerda.

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No entanto, Craufurd resolveu ser arrojado e, ignorando as ordens, acabou por ser surpreendido pela chegada de 20.000 franceses, sob o comando do Marechal Ney. Este envolveu 6.000 homens no combate directo contra a Brigada Ligeira anglo-lusa, deixando o restante em reserva e em preparação do cerco à vila de Almeida.

Acossado, Craufurd não teve remédio senão retirar rapidamente em direcção ao Côa, procurando passar à margem esquerda, numa retirada que teve vários momentos extremamente difíceis, para aí estabelecer uma linha de resistência.

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A ponte sobre o Côa tinha também uma importância estratégica vital visto ser, integrada na estrada que levava a Lisboa, a única travessia sobre este rio na região.

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Apesar dos ingleses terem acabado por conseguir estabelecer uma posição sólida na margem esquerda, Ney não desarmou e, de forma algo precipitada, deu ordens para que as suas forças tomassem a ponte, investindo sobre as forças anglo-lusas.

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A resistência foi no entanto encarniçada e os franceses não conseguiram passar, tendo suportado terríveis baixas, de tal forma que, devido à acumulação de mortos e feridos no tabuleiro da pontte, era já praticamente impossível atravessá-la.

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O ataque foi então suspenso. A coberto da noite, por volta da meia-noite, Craufurd acabaria por dar ordem de retirada, deixando os franceses à vontade para atacar Almeida. Esperava-se que a praça resistisse alguns meses, até às primeiras chuvas mas, por um grave infortúnio, a vila acabaria por ter de se render a 28 de Agosto.

Ver o vídeo da Recriação da Batalha do Côa - Bicentenário do Cerco de Almeida

sexta-feira, agosto 27, 2010

Sinalética original nas festas da Senhora da Agonia

Quem reside no Fundão decerto se terá ainda bem viva na memória a praga que há alguns tempos atrás assolou a freguesia e que consistia na proliferação desenfreada de placas de sinalização de Zona de Caça Associativa em sítios tão originais como jardins, quintais e -imagine-se!- até em zonas verdes, de usufruto comum da população, recém-inauguradas.

Na altura, após uma onda de indignação incontida da população, apesar da gratidão de alguns poucos que de imediato encontraram nelas um auxiliar precioso no cultivo de fabáceas, seguiu-se uma contra-praga de tão misteriosos quanto sistemáticos e múltiplos desaparecimentos das ditas placas e até de relocalizações pontuadas de sentido de humor como foi o caso daquela que foi colocada por um popular espirituoso no centro de uma rotunda.

Curiosamente, no passado fim-de-semana, em plena festa da Senhora da Agonia em Viana do Castelo, fomos encontrar uma dessas famosas placas num local bem curioso, junto à Marina. A experiência anterior não nos permite discernir se se trata da efectiva delimitação de uma zona de caça ou se, pelo contrário, estamos simplesmente perante mais um caso de original relocalização perpetrada por um indivíduo que, para o acto, se disfarçou de cabeçudo pele-vermelha.

Aceitam-se teorias.

quinta-feira, agosto 26, 2010

200 anos do cerco de Almeida - Recriação Histórica


Tem lugar a partir de hoje na vila fortificada de Almeida, a recriação da tomada de Almeida pelas tropas francesas no decurso da chamada 3ª Invasão de 1810 sob o comando de Massena. Julgada capaz de resistir durante meses, a fortaleza rendeu-se após alguns dias de combate devido à terrível explosão do castelo medieval (ler testemunho aqui), transformado em depósito de munições, que arrasou grande parte da povoação.

A vila só seria reconquistada pelas tropas luso-britânicas (é mais bonito dizer assim que dizer "anglo-lusas") em 1811.

A 24 de Julho, após o combate na ponte do Côa, à vista de Almeida, e porque a retirada de Crawford deixava Almeida sem esperança de socorro, Ney intimou imediatamente Cox a entregar a Praça. Obtendo resposta negativa, foram tomadas medidas para o seu cerco (Júnior: 2006, 15). As tropas francesas aproximaram-se da Praça, instalaram várias baterias no pequeno planalto sobranceiro ao rio (numa zona fronteira ao Baluarte de S. Pedro; como já tinha acontecido no cerco de 1762) e, após demorada montagem, só a 26 de Agosto as baterias dos sitiantes abriram fogo, incendiando desde logo muitos edifícios. Nesse mesmo dia ao fim da tarde, acidentalmente, o Paiol do castelo explodia. O saldo que se seguiu não podia ter sido mais trágico: Castelo, Igreja Matriz e áreas confinantes foram pelos ares, ficando completamente destruídas, para além do elevadíssimo número de baixas civis e militares. Face à calamidade, a Praça-forte de Almeida capitulou três dias depois, depondo a guarnição as suas armas às 9 horas do dia 28 de Agosto e só seria recuperada, pelas tropas de Wellington, em 1811.

do site da CM-Almeida

Ver programa completo aqui.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Cada cidadão tem direito ao seu gatuno

Um sketch humorístico para terminar o dia com boa disposição. Um cidadão angolano propõe uma abordagem tão original quanto arrojada para os problemas do sistema penal. A ideia passa por cada família capturar um gatuno e adoptá-lo. Vale a pena ouvir!



Acidente na A25 - As estradas alternativas que afinal não o eram

Anteontem, no regresso da minha estadia de fim-de-semana por terras de Alto Minho, fui surpreendido, ainda na A29, pela notícia do acidente que ocorrera cerca de uma hora antes na A25, em local para o qual me dirigia. Confiando nas notícias difundidas pela rádio de que o trânsito estava a ser desviado pela N16, entrei na A25. Mal sabia que me esperava uma odisseia que me levaria a casa 6 horas depois mas com a plena certeza de que as alternativas à A25 prometem emoções a rodos.

Não vou tecer conjecturas exaustivas sobre o que causou ou deixou de causar o acidente até porque a análise, é relativamente simples de fazer. A incapacidade de adequar o estilo de condução às condições meteorológicas, por um lado, e a sobreposição do fascínio do sensacionalismo às mais elementares regras de precaução, por outro lado, terminaram no saldo final de 6 mortos e 89 feridos.

Entretanto, esta situação levou, como eu já referi, ao desvio do trânsito por vias alternativas à A25. Confiando no facto de nada ser dito nos sucessivos noticiários quanto à fluência do trânsito para aí desviado e ainda por esta via se perspectivar como alternativa à A25 a partir do momento da entrada em vigor das portagens e pensando eu que reunisse condições razoáveis de circulação, optei por prosseguir na auto-estrada até ao nó do Carvoeiro onde dois polícias se encontravam colocados e a desviar o trânsito para a N16.


Infelizmente, acabei por constatar que a N16 mais não é que uma estrada mais estreita do que a visão de alguns dos nossos governantes, uma via apertada na qual dois camiões não se conseguem cruzar sem o máximo de cuidado, obrigando a sucessivas paragens do trânsito. A conta-gotas o trânsito foi progredindo e, duas horas depois, já tinha conseguido progredir uns notáveis 10km…

A N16... Trânsito bloqueado

Acabei por desistir até porque na ponte sobre o Vouga, junto a Pessegueiro do Vouga, a situação era caótica. Optei por “escapar” em direcção ao nó de Talhadas procurando uma alternativa a Sul. Já nesse nó, abordei um polícia a quem perguntei se não haveria uma alternativa da alternativa ao que este respondeu esclarecedoramente “Oh amigo, até a alternativa da alternativa da alternativa está saturada”. Perante a situação caótica também na N333, paralela a Sul da A25, a sua recomendação foi que eu retrocedesse pela auto-estrada saindo em direcção a Águeda para apanhar o IP3.

Após consulta a um mapa rodoviário que entretanto adquirira para suprir a deficiência informativa em que me encontrava (sem mapa, sem GPS e sem telemóvel já agora, mas com um jornal que entretanto tivera tempo para ler duas vezes naqueles 10km da N16), decidi encurtar o percurso passando pela N230 em vez de descer até ao IP3, dado o grande desvio que isso implicava.



Depois de uma passagem por Águeda onde alguns camionistas espanhóis desesperavam em busca da N1 para Coimbra, a N230 revelou ser uma estrada do tipo “curva à direita, vomita à esquerda” que, ainda por cima, estava ela também imersa num opaco manto de nevoeiro sendo que, para piorar, em muitas zonas a estrada pura e simplesmente não tinha marcações. Prossegui arrojadamente com o ponteiro do velocímetro colado aos 20km/h e, cerca de 2h30 depois de ter deixado o nó de Talhadas, regressava finalmente à A25, retomando o caminho normal para casa.

A N230 no seu melhor. Nesta altura ainda se via alguma coisa.

Toda esta experiência, se dúvidas houvesse, serviu para demonstrar que não há neste momento alternativas consistentes à A25, sendo também de estranhar o facto de uma estrada dita “nacional” não reunir condições de circulação como acontece na N16. É óbvio que se tratou de uma situação excepcional mas, inevitavelmente e sendo a A25 uma via internacional, a entrada em vigor das portagens irá levar ao aumento do tráfego nesta via com inerente circulação de pesados (salvo interdição).

Também é necessário rever os planos de contingência das autoridades em caso de tragédias como as de ontem. Não basta desviar o trânsito apenas por desviar. É necessário desviá-lo de forma a manter um mínimo aceitável de fluidez e, já agora se não for pedir muito, prestando também informações concretas e claras sobre os melhores percursos a tomar pelos automobilistas e não, como referiu um agente no nó do Carvoeiro "Não faço ideia! Só sei que tem de ir pela N16".

terça-feira, agosto 24, 2010

Reconstituição do acidente na A25

A SIC colocou há instantes na Rede uma proposta de reconstituição do acidente de ontem na A25. Enquanto não publico aqui a odisseia que vivi na sequência do desvio do trânsito para a N16 durante o período em que a A25 esteve fechada, aqui fica a dita reconstituição.




Fonte: SIC

quinta-feira, agosto 19, 2010

Férias 2010, Parte 11 - O Forte de Joux, o ninho da águia

Começamos logo com duas fotos do Forte e da paisagem envolvente (fotos cujos créditos estão referidos no final do artigo) que é para entrar “a matar”:

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E agora, vamos ao artigo propriamente dito.

O Forte de Joux resulta de sucessivas adaptações de uma fortificação datada do século XI, tendo sido utilizado sem interrupção, embora por vezes como prisão, até ao final da 2ª Guerra Mundial, altura em que a guarnição alemã que ocupava o lugar acabou por retirar.

Situa-se num de 2 picos que, na localidade de La Cluse et Mijoux (traduzido com alguma liberdade para o Estreito a meio do Jura) dominam estrategicamente uma passagem estreita da estrada que liga o centro-norte de França à Suíça e que durante séculos, foi também uma via privilegiada de acesso à Itália. Esta estrada ganhou ainda mais importância a partir do momento em que, na Idade Média, se constituiu como um ponto de passagem obrigatória da Rota do Sal.

Compreende-se por isso que os Senhores de Joux tenham prosperado com a portagem que impunham a quem quisesse passar por aqui, portagem essa que, dado o seu valor, era muitas vezes cobrada com recurso a confisco, sequestro e coação.

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Pátio de Armas do antigo castelo medieval. Vê-se à direita a cisterna e, em frente, a porta da cela de Mirabeau lver mais abaixo)

Tendo passado para o domínio do Condado de Borgonha, o castelo acabaria por ir parar, juntamente com toda a actual região do Franco-Condado, às mãos da coroa espanhola. Finalmente, já no século XVI, a região foi finalmente anexada pela França e foi nessa altura, dada a importância estratégica da praça, que Vauban (lembram-se dele?) aqui ordenou importantes obras de fortificação, tendo mandado construir um forte no outro pico da passagem para interajuda defensiva.

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O Forte de Joux, em primeiro plano à direita e, ao fundo do outro lado da portela, o Forte Larmont. Este foi construído para reforçar a protecção do Forte de Joux, vulnerável a artilharia colocada no outro lado da portela.

A partir do século XVIII, o Forte tornou-se uma prisão do Estado, para onde eram “encaminhados” muitos indivíduos sem recurso a julgamento, tendo-se tornado tão famosa quanto a prisão da Bastilha ou a prisão do Templo.

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A cela de Mirabeau, figura histórica muito peculiar enviado para a prisão de Joux pelo seu pai, devido à vida libertina que levava. Tal era o seu poder de persuasão que se tornou amigo do governador da prisão, tendo inclusive autorização para ir frequentemente à vila de Pontarlier, ali perto. Acabou por fugir para a Holanda com a jovem esposa de um rico senhor local. Capturado, foi condenado à morte pelos crimes de sedução, rapto e adultério mas acabou por conseguir ser indultado e, mais tarde, chegaria a deputado.

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Cela de Toussaint Louverture, libertador do Haiti. Liderou a revolta dos escravos negros contra a França, tendo elaborado uma constituição para o Haiti, nomeando-se governador vitalício. Capturado por uma força expedicionária francesa, foi enviado para Joux onde acabaria por morrer poucos anos depois devido ao rigor climático e perante a impotência do governador da prisão que chegou a pedir ajuda ao Governo alegando que em Joux não dispunha de médicos para tratar negros mas apenas para tratar brancos.

Equipado já na época da I Guerra Mundial com novas fortificações, nomeadamente dois canhões de 155mm cujos únicos disparos conseguiram fazer 2 mortos entre o gado bovino que pastava pela região, acabou por ser delapidado pelos alemães que queimaram madeiras e tecidos para se aquecerem e desmontaram tudo o que era metálico para a sua indústria de guerra.

A Visita ao Forte

Esta visita constituiu o regresso a um local que me ficou na memória desde 2004, altura em que o visitei pela primeira vez. Para além de uma ou outra mudança positiva no conjunto do monumento, houve desta vez um factor que mudou tudo: a qualidade do guia que, beneficiando da sua formação como actor, animou - e de que maneira! - a visita, rematando a informação histórica e arquitectónica com apontamentos humorísticos simplesmente deliciosos.

Com um impressionante molho de chaves na mão, o guia começa por nos levar pela Porta de Luís XIV, sobre a ponte levadiça que transpõe o fosso de Vauban, em direcção à entrada sob a casa do Governador do Forte/Prisão. Ainda hoje é possível admirar o engenhoso sistema de pontes levadiças, existentes nas duas portas referidas, que permitiam que apenas 2 soldados levantassem as pontes em questão de segundos.

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O guia diante da porta de Luís XIV, sob a chuva que nos primeiros momentos, teimou em cair a potes.

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Vista do interior da porta de Luís XIV, a partir do interior, com as fortificações da época da I Guerra Mundial ao fundo.

O primeiro momento de “emoção” aconteceu no Pátio de Armas do antigo castelo medieval, quando o guia, após uma explicação das funcionalidades do pátio e dos pormenores defensivos medievais ainda visíveis (por exemplo as pedras “almofadadas” do aparelho de uma das torres, destinadas a rebater ou quebrar projécteis, herança da presença espanhola), convidou os visitantes a acompanhá-lo na visita às celas que tornaram Joux tristemente célebre como prisão do Estado…

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“Senhoras e senhores, vamos visitar a prisão! Sigam-me!… Então?? Não vêm?”

No pátio seguinte, o pátio da cidadela, onde se encontra a cisterna, a visita prosseguiu para a cela de Mirabeau onde, após o essencial relato da epopeia da personagem, o guia chamou a atenção para um facto inédito: era a primeira vez que a cela iria ter tantos ocupantes. Dito isto, saiu da cela a correr trancando a porta atrás de si e deixando os visitantes prisioneiros. Após alguns segundos voltou a abrir a porta espreitando intrigado e comentando “Estranho… Normalmente nesta altura as pessoas já estão a gritar e a bater contra a porta”.

Sossegadas as emoções, e após uma incursão ao esplêndido museu de armas antigas (que se prepara para estar disponível fora do percurso da visita) e com uma passagem por uma cela de 1x1,5 que terá sido durante 12 anos, segundo uma lenda, o local de clausura de uma mulher adúltera, a visita prosseguiu em direcção aos subterrâneos.

Houve então que descer por uma escada em caracol com mais de 200 degraus, cuja disposição é capaz de enregelar a pilosidades mais íntimas da anatomia humana.

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A impressionante escadaria em caracol que leva aos subterrâneos do forte, bem no coração da montanha. Ao contrário do que chegou a parecer, não é possível avistar a China a partir do topo da escadaria.

Percorrendo a galeria que parte da base da escadaria, que era coadjuvada por um monta-cargas, chegamos à sala do poço.

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Contemporâneo das galerias, o poço, mandado escavar por Vauban que estava bem ciente da importância da água na defesa de uma fortaleza e ciente também da insuficiência da cisterna, tinha originalmente 140m de profundidade. Actualmente tem “apenas” 120 mas é o suficiente para provocar no ser humano uma sensação bem mais forte do que a visão das escadas em caracol.

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Momento em que uma visitante anónima que, por pura coincidência foi captada pela objectiva da máquina fotográfica, expressa o seu profundo assombro perante a profundidade insondável do poço de Vauban que, para evitar eventuais problemas de desaparecimento de visitantes mais entusiastas, se encontra tapado por uma grade metálica bastante enferrujada.

O poço foi escavado de forma ininterrupta, dia e noite, por equipas de 3 homens durante semanas. Trata-se de um dos maiores poços da Europa.

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Visão do poço por entre as barras da grade de protecção. Com uma iluminação mais forte, acreditamos ser possível avistar a China.

Quem não se deixou impressionar pela profundidade do poço, deixando no ar a curiosidade relativamente ao valor dos seguros de saúde e do subsídio de risco dos funcionários do Forte, foi o guia que, para se fazer ouvir melhor, subiu para as grades do poço para continuar o seu relato.

Em direcção à saída, há ainda tempo para ver os cenários usados em 1992 para a rodagem do filme francês “Os Miseráveis”, adaptado da obra de Victor Hugo.

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Cenário do filme “Os Miseráveis”. Trata-se da prisão onde Jean Valjean é encarcerado.

A visita terminou no fosso de Vauban, diante das casernas dos soldados que actualmente estão em fase de recuperação e consolidação para albergar, entre outras coisas, o museu de armas antigas.

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Fosso de Vauban. É visível ao fundo a ponte levadiça da porta de Luís XIV e, à direita, as casernas dos soldados.

Obviamente, a visita terminou com uma estrondosa salva de palmas (e muitas gorjetas) ao guia que, à boa maneira clássica, dedicou uma vénia aos visitantes.

Obrigatório visitar:

Sítio Oficial do Forte de Joux

Foto aérea da região do Doubs (com o Forte de Joux incluído)

Fotos da panorâmica do Forte: Laboratoire Million e Fryz Edition

terça-feira, agosto 17, 2010

Sugiram um título para esta foto!

Numa esplanada algures na Confederação Helvética, a Ana registou este interessante pormenor. Cabe agora a vocês, à semelhança de desafios anteriores, sugerirem um título para esta foto. Soltem a vossa criatividade, com ou sem cafeína!

Os melhores títulos serão publicados no álbum "Foto Legenda Colaborativa no Facebook" no seguinte endereço: http://www.facebook.com/album.php?aid=20138

Edições anteriores:

segunda-feira, agosto 16, 2010

Férias 2010, Parte 10 - A Ronda dos 4 Países



Depois da visita ao singular Forte Hackenberg, tendo em conta que era ainda cedo para regressar e tendo em conta a proximidade da fronteira, decidimos ir espreitar o que se passava do outro lado da fronteira franco-alemã. Pelo coerente critério da relevância do ponto no mapa, escolhemos a cidade de Trier para ser a nossa estreia em solo alemão.

Longe estaríamos de esperar aquilo que encontrámos ao chegar. Ao que parece, Trier é a mais antiga cidade da Alemanha, fundada pelos romanos como colónia em 16 a.C, chegando nesse período da sua história a ter 70.000 habitantes. Isso explica a profusão de vestígios romanos em excelente estado de conservação que impressionam pela sua monumentalidade. Trier chegou mesmo a ser capital imperial durante a Tetrarquia, período em que o Império foi dividido em quatro, chegando a ser conhecida como "Nova Roma".


A Porta Negra, a fortificação romana em melhor estado de conservação a Norte dos Alpes. Chegou a ser uma igreja dedicada a São Simeão que habitou num compartimento da Porta Negra, tendo sofrido diversos acrescentos que a descaracterizaram até que Napoleão mandou demolir os anexos que não era romanos, voltando a deixar a porta em evidência.



As Termas Imperiais. Nunca tendo sido concluídas, serviriam depois como fortificação durante a Idade Média.




A Catedral de Trier e a Igreja de Nossa Senhora.




Os campanários e torres sineiras são uma constante na paisagem.




Ao todo, a cidade tem nem mais nem menos que 9 monumentos classificados pela UNESCO como Património da Humanidade, sendo 7 deles de origem romana. Os restantes são a Catedral e a Igreja de Nossa Senhora.


É também obrigatório visitar a Marktplatz, a praça do mercado, onde, por exemplo, é possível encontrar a mais antiga farmácia da Alemanha, datada do século XIII. Os edifícios que delimitam a praça são fantásticos, lembrando uma cidade tirada de um conto infantil, dada a profusão de formas, cores e recortes que apresentam.


Um palácio junto à Marktplatz


Marktplatz. A fonte das Virtudes


A Marktplatz vista de outro ângulo.

Como não há bela sem senão, numa altura em já ponderávamos a hipótese de viver em Trier, fomos confrontados com um pormenor que inviabilizaria de todo essa disposição: o preço do café! Ainda não sabemos se o preço de 1,80€ se deveu à bolachinha, ao açúcar ou à bandeja que acompanhavam o café.


Aproximando-se a hora de jantar, decidimos procurar um restaurante simpático para o fazermos. A busca prolongou-se um pouco mais que o esperando, acabando por nos levar...





...até à cidade de Luxemburgo, capital do Grão-Ducado com o mesmo nome.


Obviamente, para não destoar, a cidade tem também um conjunto arquitectónico classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, formado pelas ruas do centro histórico e pelas fortificações da cidade velha que estão rodeadas por um vale cavado, qual fosso natural sobre o qual se atravessam várias pontes. Infelizmente, a iluminação cénica deixa muito a desejar e, dada a hora à qual passeámos pelas ruas do centro histórico, apenas conseguimos ficar com uma ténue ideia da monumentalidade das fortificações.

Destacamos ainda a boa recepção da população residente no Luxemburgo (provavelmente até alguns luxemburgueses) que, para nos receber, saiu à rua com os melhores fatos e tirou da garagem os BMW, Audis, Porsches e derivados.



Uma ponte cruza a ravina que servia de fosso natural às fortificações da cidade velha de Luxemburgo (à direita)



No passeio pela cidade velha constatámos que, a passos tantos, havíamos entrado num pátio para o qual confluíam vários edifícios governamentais. Obviamente, estranhámos a facilidade de acesso e o facto de o portão do pátio estar aberto mas, ao fim e ao cabo, não estávamos no Luxemburgo? Sendo tão pequeno, toda a gente se deve conhecer.


O que ficou na retina foi também a profusão de edifícios modernos e de arquitectura extremamente interessantes que ladeavam a avenida pela qual entrámos na cidade, uma recta com cerca de 4km.


A câmara dos deputados e o palácio Grão-Ducal (à esquerda)



Depois de um reconhecimento prévio, optámos por um delicioso jantar de cozinha tradicional chinesa do Luxemburgo, após o que decidimos ir dar mais uma voltinha para fazer a digestão...


... até à Bélgica, mais concretamente até à cidade fronteiriça de Arlon, cidade de fundação galo-romana. O passeio pelo centro deu para deixar a ideia de uma cidade interessante, recheada de história e monumentos e com uma vida nocturna um pouco agitada aqui e ali.




Contudo, e como a hora a isso aconselhava, foi altura de encetar o caminho de regresso que passou novamente pelo Luxemburgo onde -pormenor interessante- jantar num restaurante pode ser carote mas, pelo contrário, o combustível está mais barato que em Andorra. Não foi possível avaliar o preço do café.


Deste passeio fica a certeza de que Trier irá com certeza merecer outra visita no futuro.
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