terça-feira, julho 27, 2010

Férias 2010, Parte 2 - Pela beleza do Périgord Noir

O dia começou cedo em Montignac, com a despedida do hotel onde ficámos alojados, o "Le P'tit Monde". Trata-se de um hotel pequeno e acolhedor, limpo e asseado, onde o principal problema poderá ser apenas o facto de se encontrar numa das ruas principais da localidade e os vidros duplos não abafarem tudo. Apesar de tudo, para quem não se deita cedo, esta pode ser uma boa opção de alojamento... desde que não se enganem na porta de entrada.

Depois de um renovado pedido de desculpas (pelo menos esta parte do vocabulário foi bastante praticada), verificámos que a proprietária não só já estava bem disposta como, ainda por cima, se dava ao luxo de fazer comentários jocosos elogiando a sua destreza e rapidez ao dizer que "havia sido mais rápida que um bombeiro pois, em poucos minutos, havia saltado da cama, vestido a roupa e feito um brushing antes de descer".


O Hotel "Le P'tit Monde"

A etapa que se seguiu era uma aspiração de longa data (desde pelo menos os anos 1980) a partir do momento em que li um artigo sobre a sua descoberta. Saímos pois em direcção à Gruta de Lascaux (Mais propriamente Lascaux II. Adiante explicarei porquê)!

Obra-prima da arte rupestre parietal, o local foi descoberto em 1940 por um grupo de jovens que caminhava pela floresta com o seu cão. Este, ao entrar num buraco, ficou preso nalgumas raízes pelo que teve de ser libertado pelo seu dono com a ajuda dos amigos. Ao cavar, estes verificaram que as pedras começavam a cair e produziam um som de eco. Sabendo de antemão, por ser uma descoberta frequente na zona, que se poderia tratar de uma gruta, voltaram mais tarde munidos de lanternas e desceram ao longo da pequena abertura até uma enorme sala. Caminhando com os olhos no chão, só vários metros depois decidiram apontar o foco das lanternas para o tecto e, acto contínuo, depararam-se com um desfilar assombroso de touros, cavalos e veados desenhados a três cores.

A bilheteira de Lascaux II

Conhecida a descoberta, aqui afluíram vários especialistas para estudar as pinturas e gravuras (aos milhares) que se espalhavam pelas várias galerias da gruta. Feitos os estudos preliminares necessários, decidiu-se preparar a gruta para a abrir ao público, algo que viria a suceder em 1948.

Sendo proibido fotografar o interior da Gruta de Lascaux II, aqui fica uma foto da National Geographic para terem uma ideia do fantástico cenário que se encontra no seu interior.


Infelizmente, o seu sucesso viria a ser o seu maior inimigo e, em 1960, as pinturas começaram a mostrar os primeiros sinais de degradação, devido à exposição ao ar com elevado teor de oxigénio que a abertura da entrada e o sistema de renovação atmosférica provocaram e também devido ao aumento de temperatura e humidade provocado pela presença em massa de visitantes.

Para salvar as gravuras foi necessário fechar de novo a gruta em 1963 mas depressa se começou a projectar uma forma de permitir que as gravuras fossem visitadas pelo público.

A solução acabou por ser a construção de um fac-simile a 200 metros da original, que reproduzisse na perfeição o ambiente e as pinturas da gruta original. Este fac-simile, Lascaux II, acabaria por abrir ao público em 1982, 11 anos depois de ter sido começado. Nele foram reproduzidas apenas duas salas, a grande Sala dos Touros e o Divertículo Axial (um nome mais pomposo para a sala onde a gruta se divide em dois corredores). Ainda assim, aqui estão representados 90% das pinturas de Lascaux.

Entrada das visitas para Lascaux II

A visita começa por duas antecâmaras musealizadas, nas quais é explicado o contexto da gruta e da sua descoberta, assim como as técnicas que foram empregues há 17.000 anos atrás para a realização das pinturas e gravuras. Passa-se depois à visita do espaço onde a gruta foi recriada ao mais ínfimo pormenor.

Ao longo da visita, num ambiente completamente irreal, um guia vai explicando todos os pormenores e descrevendo todas as cenas. É impossível sair de Lascaux sem mudar a nossa forma de encarar os nossos antepassados do Paleolítico Superior. É simplesmente fabuloso!

A saída das visitas. No solo percebe-se parte da imagem que a planta do sítio desenha e que poderá ser visto do ar: um enorme touro (Vê-se um de dois cornos representados por metal, a cabeça representada pelo cimento do piso e das escadas e, na esquerda, a extremidade do focinho representada por secções de troncos de árvore).

Caso tenham curiosidade em saber mais, não percam a visita virtual de Lascaux, clicando aqui.


Antes de partir, houve ainda tempo para um curto regresso a Montignac, para dar uma volta à luz do dia pela povoação. As impressões da véspera não foram defraudadas e Montignac é realmente uma povoação muito interessante, destacando-se no meio do casario antigo o seu castelo e a igreja.



Nas ruas ainda se encontravam as decorações de uma das mais importante festas de celebração da cultura Occitana, difundida no Sul de França, onde se situa a Nação Occitana (embora a língua occitana, a Língua de Oc, não seja ensinada nas escolas). Esta festa, a Félibrée, realiza-se desde 1913 e esta foi apenas a 4ª vez que foi realizada em Montignac, razão pela qual a população se esmerou com afinco na organização e nas decorações.




Partir sabendo tudo o que haveria ainda para ver na região do Périgord e tendo visto apenas Montignac e Lascaux foi como passar o dedo pela cobertura de um enorme e apetitoso bolo de chocolate e, logo a seguir ter de fugir porque, apesar de termos a fome acirrada por uma gulodice extrema, o pasteleiro ter surgido a correr na nossa direcção com as suas más intenções expressas no rolo da massa que brandia na sua mão direita. Infelizmente teve de ser pois um compromisso nos esperava a quase 600km dali.

Ainda assim, houve ainda tempo para nos deliciarmos, a poucos quilómetros dali, com a paisagem da cidade de Terrasson, caracterizada pela sua persistente ponte medieval.



Depois de um café tomado deliciosamente e em perfeita tranquilidade numa esplanada junto ao espelho de água ainda do Rio Vézère, houve tempo para subir até à dominante abadia, através de uma escadaria de acesso às muralhas. A vista e o casario impressionaram, tal como a abundância e o excelente estado de jardins existentes no centro histórico.





Junto à abadia, fomos surpreendidos por um simpático transeunte que, apesar de estar já em nítida idade adulta, transportava consigo de forma despudorada e com evidente empatia, um ursinho de peluche de estimação.


Fizemo-nos depois novamente à estrada em direcção à região da Franche-Comté embora com a imagem persistente do bolo de chocolate no nosso espírito...

(Continua)

Foto de Lascaux: National Geographic

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