domingo, junho 20, 2010

Saramago - Faleceu o populista extremista e ideólogo anti-religioso mais famoso de Portugal


Nunca li qualquer obra de Saramago tal como nunca assisti a qualquer filme de Manoel de Oliveira. Bom, talvez não seja bem verdade pois, há uns tempos atrás, ainda li algumas linhas de um dos seus livros mas parei na altura em que os cães, sem cordas vocais, começaram a ladrar ao mesmo tempo que alguém a 1.000 km dali riscava o chão com um pau. Depois disso, a minha leitura foi circunstancialmente interrompida até hoje pelo que, em termos de ranking pessoal de leitura, Saramago é batido largamente por exemplo pela Enid Blyton e pelo Destak.

Não será por isso por ser fã da sua obra literária que lamentarei a morte de Saramago. Admirava-o sim, embora consciente do cunho da subjectividade das suas convicções políticas, pelo facto de dizer tudo o que lhe ia na cabeça de forma directa e sem falsas moralidades, afrontando os dogmas instituídos. Saramago era uma pessoa tão atentatória à moral que se atreveu inclusive a dizer que Jesus tinha dado uns valentes amassos a Maria Madalena (ou ao contrário), sendo por isso considerado persona non grata por vários sectores da sociedade portuguesa e pelo próprio Vaticano.

Aliás, este último ponto não é novidade nenhuma. O Vaticano tem esta tendência de condenar à viva voz aqueles que se atrevem a diferir, em termos comportamentais, da generalidade do gado ovino. Quando se fala de comunismo (estou neste momento a benzer-me repetidamente e vou inclusive efectuar já de seguida a aplicação de desinfectante que sobrou da pandemia da Gripe A, nas mãos) então até o tecto da Capela Sistina estala.

É certo que um grupo de homens, todos eles envergando vestidos, que vivem trancados, a maior parte deles já entradotes, e guardados com afinco por jovens de trajes coloridos e sotaque germânico não pode ser um grupo bem disposto e por isso, dou-lhes um desconto. Aliás, estimo que o nível de humor no seio do Vaticano terá melhorado significativamente com a morte, segundo o l' Osservatore Romano, deste populista extremista e ideólogo anti-religioso seguidor das políticas marxistas (estou a benzer-me outra vez repetidamente e vou novamente desinfectar as mãos). Adiante.

Voltando a Saramago, a maior influência que este teve na minha vida foi provavelmente ter-me feito perceber que a palavra Nobel se lê "Nobél" e não "Nóbel" isto para além do orgulho de viver num país que, passados quase 50 anos depois de um médico ter descoberto que retirando parte do cérebro a um indivíduo este ficará muito mais sossegado, voltava a receber o prestigiado galardão sueco.

Fica na retina o reconhecimento do país a Saramago, desde a classe política (nada como morrer para mudar a reputação de um indivíduo) até ao cidadão anónimo, e com um aparato dos media tal que, tendo sido apanhado desprevenido pela transmissão televisiva das exéquias do autor, cheguei a pensar que o Papa estivesse de volta.

Isto poderá parecer muita prosa para quem só leu Saramago até à parte em que os cães, sem cordas vocais, começaram a ladrar ao mesmo tempo que alguém a 1.000 km dali riscava o chão com um pau mas, ao fim e ao cabo, nem precisaria de ter lido absolutamente nada para ter algo a dizer. Que o diga a senhora que falou para a repórter de um canal de televisão dizendo que estava ali para dar o último adeus ao autor, isto apesar de nunca ter lido qualquer livro uma vez que padecia de uma dificuldade que era a seguinte: não sabia ler. Apesar de tudo, tinha uma familiar que tinha muitos livros de Saramago e eram, segundo a senhora e em tom de voz muito sentido e grave "livros lindos".

Até sempre Saramago! Espero que não sejas alvo de bullying, aí desse lado, por parte do Abel e do seu gang, ao serviço do Maior.

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