segunda-feira, março 29, 2010

O taxista que não sabia ler japonês


Tradicionalmente, temos do taxista a ideia de um indivíduo que possui duas características fundamentais. Primeiro, acreditamos que há em cada taxista há um profundo conhecedor dos fenómenos meteorológicos. Por outro lado, trata-se também de um indivíduo que tem como que um GPS incorporado e que, tal como certos GPS actualmente no mercado, possui esta curiosa convicção que o percurso óptimo entre dois locais não é necessariamente o mais curto. O que a maior parte de nós parece ignorar é contudo que, atrás daquele ar que alterna entre o sisudo e o amorfo, se esconde um ser capaz de ter sentimentos.

Percebi isso quando, em determinada ocasião na altaneira cidade da Guarda quando, ainda tomado pela sonolência da viagem que acabava de fazer, entrei num táxi, murmurando a custo o nome da rua onde queria ir. Esperando a qualquer momento um comentário sobre o clima, fui surpreendido quando, sem preparação prévia, o taxista me atirou com
“Olha lá! Tu percebes japonês?”. Esta pergunta teve o condão de me despertar instantaneamente do meu torpor e a única coisa que consegui retorquir foi um “Como...?”.

Sem hesitar, o taxista (um tipo bem constituído vestindo uma camisa a deixar adivinhar a pelagem peitoral interrompida por um fio dourado e um penteado à Marco Paulo versão 80’s) prosseguiu o seu discurso e explicou:

-“
É que eu no Verão andei aí a conduzir uma jornalista japonesa e agora ela escreveu-me e não percebo nada daquilo que ela escreveu!” e, para o provar, exibiu-me uma folha de papel cheia de caracteres japoneses. Contudo, salvaguardando a sua ética profissional perante o meu ar inquisitório, prosseguiu: -“Atenção…! Uma pessoa está a trabalhar e por isso, só dá para dar uns beijitos, nada mais!

Sem o ter podido ajudar na tradução da carta, chegámos entretanto ao meu destino. Ao ver o carro afastar-se, e ainda procurando assimilar o diálogo inesperado em que tinha participado, não pude deixar de sentir um certo sentimento de culpa e de pensar que talvez fosse útil aprender japonês. O que é certo é que, desde esse dia, o meu respeito pelos taxistas aumentou extraordinariamente.

Mais tarde teria ainda a oportunidade de viajar com um profissional que, devido à azáfama da labuta diária, não tinha tido tempo de renovar a sua licença que, em exposição perante os passageiros, caducara alguns meses antes, e outro ainda que tinha firmes opiniões sobre os políticos da nossa praça, tendo conseguido tecer considerações sobre a profissão da mãe de todos eles. O Governo foi particularmente visado nas suas críticas, sendo cada uma delas sublinhada com um novo conjunto de perdigotos no para-brisas.

Foto: Kerodicas

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