sexta-feira, julho 03, 2009

Quando o Gil Eannes espiava ao serviço dos Nazis

O Gil Eannes, um navio estacionado permanentemente nas docas de Viana do Castelo, é actualmente uma das atracções turísticas da cidade, servindo ao mesmo tempo de espaço museológico, no qual os visitantes podem percorrer várias zonas do navio, e de Pousada da Juventude.

O Gil Eannes actualmente

A história deste navio, apresado pelo Governo Português aos alemães durante a I Guerra Mundial e mais tarde reconvertido nos estaleiros de Viana, está intimamente ligada à antiga frota portuguesa de pesca de bacalhau que sazonalmente se dirigia aos mares da Terra Nova, notabilizando-se pela assistência que prestava enquanto navio hospital, tendo servido também de navio correio, abastecedor de víveres e combustível. Testemunha de fantásticas histórias de coragem, o Gil Eannes também viveu um episódio mais sombrio, que quase mudou o rumo da II Guerra Mundial.


Um espião a bordo

Em 1942, a II Guerra Mundial estava no auge, e o Atlântico era palco de um constante jogo de gato e rato entre os submarinos alemães e os comboios de transporte de abastecimentos e tropas dos EUA para a Europa, de cuja passagem a frota pesqueira portuguesa era testemunha privilegiada.

Foi por esse motivo que em Junho de 1942, o operador de rádio do Gil Eannes, de nome Gastão de Freitas Ferraz, foi abordado no navio por um agente alemão, tendo sido persuadido, provavelmente a troco de dinheiro, para transmitir aos alemães as características e rumo dos comboios de navios dos Aliados que se cruzassem com o Gil Eannes. Essa informação era depois retransmitida aos comandantes dos U-Boat, os submarinos nazis, que tinham por missão interceptar e afundar os navios de abastecimento.


A sala de radiotransmissão do Gil Eannes.

Por esta altura, os Aliados preparavam a Operação Torcha que visava um desembarque no Norte de África. Esta operação foi precedida de um forte trabalho de desinformação através de agentes duplos nazis, que transmitiram à Alemanha indicações que este desembarque teria lugar em algum lugar entre a Noruega e a costa Norte francesa. Em Outubro, um comboio fez-se ao mar, transportando nem mais nem menos o General George Patton no comando das tropas que deveriam ocupar Marrocos.

Seguindo da Terra Nova para Lisboa, o Gil Eannes encontrava-se em rota de intercepção do comboio militar, colocando em risco todas as operações dos Aliados. Contudo, desde Agosto, o comando Aliado tinha já suspeitas de que alguém a bordo do navio "neutral" Gil Eannes estava ao serviço dos alemães, tendo identificado esse agente como sendo Gastão Ferraz.

Perante a iminência do encontro do Gil Eannes com o comboio e havendo já poucas dúvidas acerca das actividades do operador de rádio, os britânicos decidiram abordar o navio, prendendo Gastão Ferraz e colocando um grupo armado a bordo de forma a impedir toda e qualquer comunicação a partir do Gil Eannes.

Quanto a Ferraz, foi levado para Gibraltar tendo sido transferido para Inglaterra, onde foi submetido a interrogatório (que não deverá ter sido nada meigo), tendo acabado por confessar o seu envolvimento com os alemães. Apesar da invasão do Gil Eannes e da prisão de Ferraz ter gerado uma guerra diplomática entre Londres e Lisboa, o operador de rádio só seria libertado após a guerra, tendo sido repatriado.


Links relacionados:
Batalha de La Lys, parte 1 e parte 2

Bibliografia

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