sexta-feira, outubro 17, 2008

Sobre a questão do casamento entre homossexuais

A polémica actual, relativamente ao casamento entre homossexuais, é uma questão a que o Governo fugiu com a conveniente desculpa de "que ainda não é a altura certa pois há assuntos mais importantes a tratar". Trata-se de uma atitude cobarde e eleitoralista pois, na iminência de eleições e com este preconceito de que os homossexuais são uma minoria insignificante, não era sensato chocar a opinião pública conservadora e hipócrita que ainda domina este país. Por algum motivo estamos na cauda da Europa enquanto nos agarramos (nós pois, por arrasto, também faço parte do país) às "glórias" e valores de antigamente como se isso servisse para alguma coisa. Até quando continuaremos com esta mentalidade nitidamente fora de prazo que, aqui e ali, ainda consegue tocar o fundamentalismo a que noutras paragens se assiste?


Seja como for, não é minha intenção dissertar sobre o tema uma vez que a "nossa" Sete Luas já o fez, enviando-me hoje um artigo que merece ser publicado e que, melhor do que eu alguma vez o faria, descreve o rídiculo e a irracionalidade da situação. Aconselho ainda uma passagem pelo A Asneirada onde a Juanita também abordou o tema e, já agora, por uma interessante ironização da realidade Sul Africana que encontrei na web.


Obrigado Sete Luas!



Carta aberta a alguém “de direito”:

Antes de começar queria recordar que até 1982 o termo homossexual definia um criminoso, porque amar-se alguém do mesmo sexo era crime. Sim, falamos em amor, porque os homossexuais também sentem da mesma forma que os senhores só que, provavelmente, não de forma tão hipócrita. Um homossexual não é um deficiente ou um doente mental, como foi entendido até 1999 (fechem a boca, não me enganei nos dígitos é mesmo isto), cuja “doença” conduz o sentimento para a depravação moral dos bons costumes, um homossexual é um ser humano com personalidade jurídica e consciência cívica, com sentimentos defeitos e qualidades mas, por qualquer motivo que desconheço NÃO PODE contrair matrimónio.

Ah e tal porque se aprovarmos o casamento dos homossexuais vamos ter de começar a pensar na adopção, alegam os pobres de espírito sem capacidade de argumentos mais construídos. Ah e tal, saibam vossas excelências que as famílias monoparentais são admitidas há muito tempo peça constituição, assim como a adopção monoparental e, assim sendo, só por ignorância ou simples abstracção da realidade podem acreditar que os casais homossexuais portugueses, hoje em dia, não adoptam e criam crianças tão bem (ou melhor) que qualquer um dos senhores…

26 anos passaram desde 1982, muito se evolui alegam alguns mas, continuamos a ser O ÚNICO PAÍS DA EUROPA que não contempla o casamento homossexual. O partido do governo optou por adiar a questão, a desculpa? As mesmas do costume "O assunto não é prioritário"; "O mundo está em crise económica.” "Não houve ainda debate suficiente". Srs. deputados, por o mundo estar em crise económica os direitos individuais de cada um são relegados para segundo plano? Ora portanto, assim sendo, suspendamos o acesso à saúde que é um direito mas é um direito social. Tiremos os alunos das salas de aula, é um direito mas é social.


Ah pois, já entendi, os homossexuais são uma minoria, compreendido, suspendamos então a totalidade do artigo 13º da Constituição da Republica portuguesa:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.”,

afinal estamos em plena crise económica, o social não é importante…. E mais ainda, no mesmo artigo

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

ora portanto, como dizia sr. ministro? Privado de qualquer direito? Ou será que só conta a parte do isento de qualquer dever? Ah bom, isto deve ser baseado no principio da igualdade aristotélica, tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente mas, sr. ministro, isso não se aplica somente aos casos de deficiências e afins, os homossexuais já saíram dessa categoria não já? Ah se calhar casa não é um direito, ora mas voltemos a texto chave da nossa democracia, artigo 36º:

Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade”,

afinal, é um direito… e ali diz todos, deixem-me ver se é a minha constituição que está incompleta e no portal do governo tem alguma nota a dizer: “todos menos os homossexuais, mas em plena igualdade na mesma” não… também não tem….

E se nos deixássemos de idiotices? De hipocrisias? Se até no próprio Código Civil o casamento é descrito como um contrato, o que está lá a fazer a expressão “entre pessoas de sexos diferentes”? É o acesso a esse contrato que fará com que os homossexuais passem a ter uma vida em conjunto, a viverem juntos, a adoptarem, a terem relações sexuais sem vista à procriação?


Não sejamos líricos meus senhores, isso acontece todos os dias, na porta ao lado da vossa… Não é um contrato que altera a realidade, os homossexuais existem, coexistem e coabitam… e embora possa parecer pouco importante AMAM! E agora os profetas da desgraça diziam: “mas se é um contrato e se não altera a realidade porque tanto “alarido””… Eu respondo, porque é a definição do contrato que limita o direito e, meus senhores, a luta aqui é pelo direito! E um direito dá-se a quem (e perdoem-me o pleonasmo) de direito sem ser preciso tanta conversa de chacha, argumentação oca, preconceitos retrógrados e intenções eleitoralistas.


imagens retiradas daqui e daqui

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