quinta-feira, setembro 08, 2005

Adeus torres




Antes de mais, vou tentar explicar o que a península de Tróia significa para mim. Pois desde que eu sou gente que me lembro daquele pedaço de terra, mar, praia, árvores e prédios como sendo também uma coisa muito minha, apesar de aquilo já estar situado no concelho de Grândola (who cares?!) e penso que é assim para muitos sadinos como eu. Posso mesmo dizer que não me lembro, assim de repente, de nenhum outro sítio tão carregado de símbolismo na minha existência de vinte e dois anos.

Amizades & amores (que lembranças!), incontáveis fins de tarde deliciosos na praia, os jogos de verão na Praça das Quadras, incluíndo aquele cómico mini-golfe, que me proporcionaram um convívio fabuloso com gente que entretanto nunca mais vi, os dias inteiros passados nas piscinas da Galé e Bico das Lulas, a travessia do Sado a ver os golfinhos (perdão, roazes-corvineiros), a paisagem da cidade ("uma das mais belas baías do mundo") e da Serra (somente beliscada pela horrenda fábrica da Secil), e até mesmo grandes aventuras (lembro-me assim de repente de quando eu e uma amiga minha espetámos o nosso carro de ferros a pedal, daqueles que se alugam, num dos automóveis estacionados na zona residencial, tendo fugido a sete pés do local do crime - só tínhamos 13 anos)... Está tudo ali em Tróia.

As torres-aberração que vieram agora abaixo sempre fizeram parte da "paisagem", e lembro-me sempre de passar por elas, olhá-las e sentir uma espécie de arrepio fantasmagórico. Mas enfim, sempre estiveram lá, sempre estive habituada a elas.
Devo dizer que fiquei um pouco espantada pelo mediatismo da coisa, sobretudo quando soube que a implosão ia ser transmitida em directo na tv. Não obstante, é óvbio que sabe melhor ver "in loco".

Hoje lá estava a vizinhança reunida no terraço do prédio, tudo a postos para o nosso próprio "11 de Setembro" (só que foi mais um 8 de Setembro) - ressalvando as evidentes diferenças, é claro - e eu até fui munida de binóculos, acenando às pessoas dos terraços ao lado. E então, à hora marcada, vieram abaixo as nossas "twin towers", enquanto o barulho da demolição ainda demorou um bom tempo até chegar à cidade.

E em poucos minutos acabou-se tudo, voltámos todos às nossas vidas.
Fiquei no entanto a pensar se o empreendimento turístico de luxo que aí vem acabará definitivamente com as tardes tão felizes que a Tróia me deu até hoje.

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  • 1 comentário:

    Caetano disse...

    Sinceramente não percebi o porquê de tanto mediatismo em volta da implosão de dois edifícios. Que país pequeno... Isso foi transmitido ao vivo por quantas televisões? Quando ouvi a TVI a anunciar a transmissão ao vivo, passado o choque inicial, ainda receei o pior, isto é, que o programa fosse apresentado por alguém do calibre do Alexandre Frota. Não se devem ter lembrado.

    Mas se a coisa pega ainda sou capaz de vender os direitos de imagem da demolição de uns barracões que o meu pai tem lá para os lados do Vale...

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